segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Geladeira no sertão

Quem nasceu a partir da década de 1930 nos grandes Centros talvez não saiba o que é isso. Talvez não se dê conta de sua importância. Talvez não repare na diferença que ela faz. Em tempos de proteção de gargantas e de busca por uma vida mais natural, talvez não tenha consciência da geladeira. Do que é beber uma água gelada. Mas Ana o sabe.
Quando lembra de sua terra, sente vontade de comer manga tirada do pé. Em temperatura ambiente. Recorda de quando subia no pé de açaí -- que parece, segundo ela, com as palmeiras imperiais do Jardim Botânico -- para comer a fruta com farinha. Em temperatura ambiente.
Lembra dos banhos no rio. A céu aberto, com luz do sol ou da lua. Vem à memória as noites dormidas em redes penduradas nos quartos, no lugar de camas. Sempre em temperatura ambiente.
Tudo isso traz saudades. Tem vontade de reviver esses momentos. Mas Ana não sabe mais beber água que não seja gelada.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

O retorno

Ana não sabe voltar para casa. Tem todo o caminho mente. Somente com isso não seria capaz de chegar. Já se passaram mais de 50 anos desde a última vez. Não sei quantos a mais, porque esses anos são incontáveis. A memória não vai tão longe.
Sua grande mágoa é ter deixado sua terra, sem deixar rastro, sem nunca ter dado notícias. Sem nunca ter voltado. E, agora, sem saber sequer como voltar.
Ela nasceu no interior do Maranhão, calcula-se que pela década de 30. Pode ter sido no final da de 20, ninguém sabe. Nem mesmo ela. Como pode alguém não saber sua própria idade? Se não sabe voltar para casa, para quê contar os anos que já se passaram desde a última vez?
Ela deixou uns nove ou dez irmãos para trás. Tenta dizer o nome de todos, para poder contar. Clara, Júlia, Firmino, Pantaleão, Maria das Dores, José do Ribamar, ela, a Ana... hummm a memória já começa a falhar. Um pouco sinal da idade, e um pouco de auto-defesa, de tentativa de sobreviver às próprias lembranças, que dóem.
Ela sonha com encontrar os irmãos. Os pais, já morreram. Ela chegou a ter notícia, meses depois do acontecido. Mas os irmãos... algum deve de estar vivo. Restarão ao menos os sobrinhos. Ainda assim, ela quer voltar.
Quer voltar de qualquer maneira. Mas não sabe como, não sabe para onde. Sabe, no fundo, que pode não encontrar mais ninguém. Mas diz que, se pisar na sua terra, não volta mais para o Sul, não. Lá é bom demais. Dá para comer fruta direto do pé. Dá para tomar banho no rio. Dá para andar em fila indiana na trilha, com a luz da lua como guia.
Eu tento ajudar. Juro que tento. Procuro todos os nomes que ela diz no Google Maps. São João da Côrte, Guimarães, Santa Rosa, Bacabal, Monte Cristo, Santa Amélia e São José do Zeaprijo. Poucos aparecem. Justamente aqueles que ela diz serem mais distantes. Será que um lugar que não aparece no Google Maps existe? Ela diz que sim.
Tento descobrir com exatidão a localização de sua terra. Mas é difícil, o Google não acha um lugar chamado Minha Terra, que é o máximo de caracterização que a saudade permite dar. Qual é o nome da cidade? Não tem nome. Se ela não sabe sua idade, por que saberia o nome da cidade?
Mas é que não tem mesmo nome. Porque nem cidade o é. Qual é o nome da vila? Não tem nome, porque também não é vila. É uma casa, no meio do mato, a uns três quilômetros chutados da próxima. Tem um rio que passa por perto. Lá, todo mundo mora perto de um rio. Mas que também não tem nome, porque ninguém batizava riacho no Maranhão, até a década de 40 ou 50, quando da última vez.
Como seria então a volta para casa? Ah, chegando a São Luís, já estou em casa. Mas como? Pego o barco até o Porto de Una. mais uma vez no Google Maps, e nada de Una. Mas ele existe. Supondo-se sua existência, mais de 50 anos depois, qual seria o próximo passo? Pegar a trilha até a minha terra. Trilha? O que antes era mato, agora é construção. Onde tinha arroz, agora tem feijão. Onde tinha cana, agora tem soja. Onde tinha trilha, agora tem estrada.
Não no interior do Maranhão. O tempo não passou em minha terra. Lá, garanto que ainda não passa carro, que ainda não tem luz, que ainda não tem telefone, que não passa televisão. Garanto que lá não tem escola, não tem nem igreja, nem capela tem. Que está tudo igual. Que minha trilha ainda existe.
Mesmo que assim seja, porque tudo é possível neste país, ainda mais no Maranhão, ainda mais em seu interior. Mesmo que você consiga voltar para casa. Que encontre um sobrinho perdido. Que descubra algum laço, algum parentesco, algum sangue em comum. Você acha que este sobrinho vai querer tomar conta de você?
Silêncio.
Essa pergunta era mais difícil.
Mas é claro, oras! Primeiro, porque ninguém vai ter que tomar conta de mim. Segundo, porque família é família e a gente sempre quer ter família por perto. Sempre. Sempre?
O segundo silêncio parecia mais complicado. Porque não era de dúvida. Era de uma resposta evitada. Se a gente quer sempre família por perto, Ana perguntava-se por que abandonara a sua. Por que foi embora sem deixar rastro. Por que nunca voltou. E ela chora, mas as lágrimas não caem. Ana não vai voltar para casa.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O motivo

Não sei bem qual é o meu objetivo ao criar este blog. Mas seu qual é o motivo: uma história diferente, muito representativa do nosso país, da realidade do brasileiro e das minhas próprias raízes. Tentar entender esta pessoa é tentar compreender um pouco quem sou. Quem somos, nós os que vivemos com ela. Não somos poucos.

Já pensei em escrever um livro. Primeiro, não sei se seria capaz de fazê-lo. Por incapacidade técnica e psicológica. Segundo, porque não saberia o que fazer com ele. Com o blog, talvez seja diferente. É mais fácil de compartilhar. Com a minha família, que se tornou a dela, e, quem sabe?, com alguém da vida que ela deixou para trás, que pode se reconher nos escritos que ainda virão...

Acho que, no fundo, a busca dela se tornou também a minha busca. Vou tentar descobrir onde está esta família perdida, os conhecidos que ficaram pelo caminho... ou, pelo menos, vou tentar registrar, com humildade, as histórias que ela conta, de forma inigualável...